terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

61.

 "Leio que se comprovou que depois da morte do corpo, o cérebro continua a viver entre seis a doze minutos; que se pode pensar depois de se ter falecido. E que, para o morto, esses doze ou seis minutos podem chegar a parecer-lhe, como acontece com o tempo elástico e horizontal dos sonhos, uma eternidade. Ou, pelo menos, outra vida completa, sonhada, ideal ou terrível. Talvez isto seja o céu ou o inferno: o modo como se passam e se consomem esses poucos minutos infinitos. Com felicidade ou com pavor. Leio também que o cérebro é incapaz de sentir qualquer tipo de dor; que ao cérebro nada dói, que o cérebro não dói. Contudo, o cérebro é o único responsável por processar - por inventar, por escrever - a teoria e a prática da dor. Penso no que pensará o cérebro cada vez que lê coisas assim sobre si próprio. Todos esses acrescentos ao seu mapa situando as zonas da moral, do medo, da ética, da fé na imortalidade da alma. Sentirá o cérebro interesse pelos avanços dos homens ? Ou rir-se-á, talvez divertido, perante o facto de que tudo isto que achamos que descobrimos sobre ele não ser senão aquilo que ele quer que pensemos, aquilo que o cérebro nos permite pensar sobre o cérebro?"

Jardins de Kensington, Rodrigo Fresán

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